São Bernardo do Campo / SP - terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Doença mental: Mitos e Realidades

  • Mito: Os transtornos mentais e cerebrais só afetam os adultos dos países ricos? Realidade: Todos são afetados – crianças e adultos, ricos e pobres. 

Os distúrbios mentais e cerebrais afetam adultos, idosos, crianças e adolescentes. Em todo o mundo, aproximadamente um em cada cinco jovens (15 anos ou menos) sofre dessas perturbações. Tradicionalmente, a maioria dos tratamentos tem sido dirigida a pacientes adultos, uma grande quantidade dessas crianças não recebe tratamento, ignorando-se a necessidade de intervenção precoce na infância. Na América Latina e no Caribe, cerca de 17 milhões de jovens, na faixa dos cinco aos 17 anos, encontram-se afetados por distúrbios mentais ou cerebrais suficientemente graves para exigir tratamento. Os transtornos mentais e cerebrais preocupam os países desenvolvidos e os em desenvolvimento. Em um estudo realizado pela OMS em 27 países em desenvolvimento e desenvolvidos, não se encontrou nenhum povo que estivesse isento de esquizofrenia. O uso abusivo de álcool é outro transtorno comum que desconhece limites. Na América Latina, a prevalência do abuso de álcool varia de 9,7% na Costa Rica a 35,6% no Paraguai. A epilepsia é mais freqüente nos países em desenvolvimento. Estima-se que cinco milhões de pessoas nas Américas e no Caribe estejam afetados por essa doença.

  • Mito: Os transtornos mentais e cerebrais são somente frutos da imaginação?  Realidade: Elas são doenças verdadeiras que causam sofrimento e incapacidades. 

Controle-se—isso é tudo produto de sua imaginação.” Quantas vezes já ouviram isto ser dito? Não são só os amigos e os parentes que não se dão conta da existência de um transtorno mental. Até mesmo os governos escolhem apelar para a ignorância, como demonstra o fato da saúde mental ser, muitas vezes, excluída das prioridades e planos de saúde. Os transtornos mentais são verdadeiros. As doenças mentais e os transtornos cerebrais provocam sofrimento, causam incapacidades e podem até reduzir os anos de vida, como se constata pelos episódios de depressão depois de um ataque cardíaco, pelas doenças hepáticas resultantes da dependência alcoólica ou pelos suicídios. A existência de transtornos mentais e cerebrais permanece muitas vezes escondida, seja voluntariamente pelo paciente ou simplesmente não sendo reconhecidas como uma doença real pela pessoa e por sua família. No entanto, a subestrutura anormal subjacente de muitos distúrbios já foi identificada por imagens do cérebro. Portanto, ignorar sua existência é o mesmo que ignorar a existência do câncer por não podermos ver as células anormais sem o uso de um microscópio. É possível diagnosticar e tratar as doenças mentais antes que seja tarde demais. Os sintomas são um sinal de doença real. É fácil ignorar ou descartar muitos sintomas, contudo as depressões unipolares, a ingestão de álcool, os distúrbios afetivos bipolares (maníaco-depressivos), esquizofrenia e perturbações obsessivo-compulsivas situavam-se, na década de 1990, entre as 10 principais causas de incapacidade em todo o mundo. As deficiências associadas com os transtornos mentais e cerebrais impedem as pessoas de trabalhar e de se engajar em outras atividades como, por exemplo: a mãe deixar de cuidar do bebê, um adolescente que deixa de se associar com seus companheiros e uma pessoa de idade que se torna incapaz de cuidar de si mesma.

  • Mito: É impossível ajudar alguém com um transtorno mental ou cerebral? Realidade: Existem tratamentos e os atendentes podem receber assistência.

Algumas pessoas se recuperam completamente dos transtornos mentais e neurológicos, outras têm mais dificuldades. Em todos os casos, o sofrimento pode ser aliviado com diferentes métodos. Por exemplo; • a esquizofrenia, um distúrbio grave, é tratável. A pessoa sofrendo de esquizofrenia pode ser ajudada com medicamentos para reduzir os sintomas. Pode-se evitar a reincidência mediante intervenções psicossociais junto à toda a família.• Crianças e adultos com epilepsia, diagnosticados mais recentemente, poderiam manter as convulsões sob controle total durante muitos anos, desde que recebam a medicação apropriada.• As medidas de reabilitação com vistas a melhorar as habilidades sociais e pessoais ajudam as pessoas com depressão a recuperar uma vida normal. Em muitos casos, os medicamentos antidepressivos também ajudam. É possível conseguir ajuda de profissionais de saúde em dois níveis. Os profissionais de saúde tais como médicos e enfermeiras, podem ser consultados, uma vez que, a maioria das comunidades tenta acesso a eles. Com treinamento adequado e com supervisão, esses profissionais poderiam estar mais bem capacitados para identificar e proporcionar tratamentos eficazes para as perturbações mentais e cerebrais. Uma das maiores dificuldades é eliminar a vergonha associada com esses distúrbios para que as pessoas falem francamente com seu médico sobre seus problemas emocionais. O pessoal de saúde especializado, incluindo psicólogos, psiquiatras e neurologistas, enfermeiras em psiquiatria e em neurologia, assistentes sociais e terapeutas ocupacionais, onde disponíveis, oferecem atendimento especializado. Não basta somente assistir à pessoa que está sofrendo. A família também precisa de ajuda tanto para preservar sua capacidade para funcionar como para seu bem-estar. Raramente ela recebe tal ajuda. Em todos os países há necessidade de se criar mais serviços para as famílias.

  • Mito: Os transtornos mentais ou cerebrais são causadas por fraqueza de caráter? Realidade: Elas são causadas por fatores biológicos, psicológicos e sociais.

“Se você realmente se empenhasse poderia superar isto.” Quantas vezes estas palavras são ditas? Entretanto, os distúrbios mentais ou cerebrais são complexos e não são apenas uma questão de força de vontade ou esforço. Há pesquisas sendo realizadas para determinar as origens genéticas ou os fatores biológicos de vários distúrbios. Já ficou demonstrado estarem os genes associados com a origem da esquizofrenia e com a doença de Alzheimer. Sabe-se que a depressão está associada a modificações nas substâncias químicas no cérebro. A dependência alcoólica, muitas vezes tachada como um vício resultante de mau caráter moral está hoje em dia relacionado com os genes. Uma causa biológica do retardamento mental é a falta de iodo, vital para o desenvolvimento de cérebro, na alimentação da criança em fase de crescimento. As influências sociais podem contribuir de modo significativo para a evolução de vários distúrbios. Por exemplo, as pessoas reagem de formas diferentes em situações de estresse. A perda de um ente querido pode, potencialmente, levar à depressão. A perda do emprego está associada ao uso abusivo do álcool, ao suicídio e à depressão. Ambientes onde falte alento, seja isto resultantes de lares sem amor ou de violência dentro de casa ou na comunidade, podem causar maior risco de doença mental. Os profissionais da saúde mental podem servir melhor a comunidade entendendo o contexto cultural e social no qual o seu trabalho é realizado.

  • Mito: Deveríamos simplesmente enclausurar as pessoas que sofrem de algum transtorno mental? Realidade: As pessoas com um transtorno mental podem funcionar e não devem ser isoladas ou confinadas.

O tratamento das doenças mentais está muitas vezes associado a hospitais psiquiátricos. Existem ainda, até hoje, instituições que violam os direitos humanos básicos, privando o paciente de sua dignidade mediante tratamento desumano. Muitas vezes o abandono, o confinamento ou o isolamento podem ser considerados como a única solução diante de uma pessoa enferma. No entanto, os fatos demonstram que os doentes mentais ou pessoas com transtornos mentais podem melhorar e contribuir para a sociedade. Há muitos tratamentos disponíveis; existem também condições melhores e mais apropriadas para proporcionar esses tratamentos. Hoje, o quadro que se apresenta nas Américas está longe de ser perfeito, porém dispõe-se agora de assistência em uma variedade de ambientes. A residência do paciente, clínicas, salas de emergência, enfermarias psiquiátricas em hospitais gerais e centros de atendimento diurno são todas opções viáveis. A reabilitação tem lugar em albergues, cooperativas, seminários protegidos e em grupos de apoio social. Tal como os problemas físicos,os transtornos mentais e cerebrais variam em sua gravidade. O tratamento tem de ser apropriado à disfunção e levar em consideração a situação da pessoa: ela vive sozinha? Tem família que lhe poderia proporcionar tratamento junto com o médico ou a enfermeira? A melhor alternativa dependerá de cada pessoa e, seja qual for a situação, os direitos humanos das pessoas têm de ser preservados. Os mitos em torno dos problemas de saúde mental são responsáveis pela terrível vergonha e contribuem para os níveis baixos de tratamento. A Organização Pan-Americana da Saúde prevê que, na América Latina e no Caribe, mais de 11 milhões de pessoas sofrerão de alguma forma de distúrbio emocional até o ano 2010.

Referência: OPAS (2001).

Modificado em 26/05/2009 por Dr. Luis C. Bethancourt.